segunda-feira, outubro 30, 2006

A infelicidade do celibatário

Franz Kafka
Tradução de Modesto Carone

Parece tão ruim permanecer solteiro e já velho pedir acolhida - mantendo com dificuldade a própria dignidade - quando se quer passar uma noite em companhia das pessoas, estar doente e do canto da sua cama fitar semanas a fio o quarto vazio, despedir-se sempre na porta do prédio, nunca abrir caminho para o alto da escada ao lado da esposa, ter no quarto apenas portas laterais que dão para apartamentos de estranhos, trazer numa das mãos o jantar para casa, ter de admirar os filhos alheios e não poder continuar repetindo "não tenho nenhum", tomar por modelo, no aspecto físico e no comportamento, um ou dois celibatários das lembranças de juventude.

Assim vai ser, só que na realidade, hoje como mais tarde, ali estará o mesmo de sempre, com um corpo e uma cabeça real - ou seja, com uma testa também - para bater nela com a mão.

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