segunda-feira, dezembro 11, 2006

Dobrei a toalha
Com precisão
De um anacoreta

Trouxe teu balsamo
E tua túnica
Espalhei todos os cheiros
No quarto de dormir

As velas
Em quentes chamas
Clamam
Sacudidas pelo meu respirar

O vinho
Tem o vermelho dos meus olhos
Enquanto estão a esperar

Dobrei a toalha
Com precisão
De anacoreta
Mas não a guardei

quinta-feira, novembro 30, 2006

Será que tem alguma coisa
Nesse céu
Além desse gás azul
Que tanto me incomoda
Quando não vai chover

Fragmento...

Este é um fragmento de um poema escrito há algum tempo. Pífio, na estética, tosco, na linguagem; mas que combina bem com o dia de hoje...

Desde que eu nasci comecei a morrer
Não que eu pudesse interromper esse processo
São os dias de minha existência que passam
Sem retrocesso, inalteráveis e culpados
Posso passar a vida inteira nessa lamúria interminável
E este solilóquio sem objetivos não altera em nada
Minha amargura, pela vida, pela existência...
A esperança - quem ainda a terá? - abandonou-me
E este monstro que sou, sonha um pesadelo contínuo
Confunde-se e confunde-me, não sabendo de se durmo ou
Desperto ando.
Mais um ano, mais um ciclo do espiral passou,
Em tempos vindouros, talvez veja as mesmas marcas em outro rosto
(...)

sexta-feira, novembro 24, 2006

Cata-Vento

Girava
Com a força do vento.

Nas pequeninas mãos
um anel de vidro
e um cata-vento
na boca
em sorriso
cristais cintilam
e as pás do moinho
giram nos teus cabelos
eu vejo seus olhos miúdos
querendo tanto
e tudo

e as voltas que dás
são pelos assobios da nossa melodia.

segunda-feira, novembro 20, 2006

João e Maria

João queria viver só com Maria
Numa ilha, talvez
Num parque de diversões
Fechado, obviamente
Mas ela queria o mundo
As flores e o campo
E isso doía para ele
E sabendo que com ela
A solitude sempre estaria ocupada
Decidiu ficar só com a foto
Com o cheiro
Com a batida do coração
Com a lembrança
Maria se foi é verdade
Mas João sorri
Sempre que imagina
Estar com ela, somente

terça-feira, outubro 31, 2006

Sobre Angústias

Com as duas patas do potro no peito,
A garganta é o freio que ele mastiga
Seus olhos injetados de sangue
Há ódio, dor...

Sem reação, inerte
Entregue ao triste destino...
Sorvendo um último gole
Do tinto vinho
No sangue das minhas artérias...

segunda-feira, outubro 30, 2006

A infelicidade do celibatário

Franz Kafka
Tradução de Modesto Carone

Parece tão ruim permanecer solteiro e já velho pedir acolhida - mantendo com dificuldade a própria dignidade - quando se quer passar uma noite em companhia das pessoas, estar doente e do canto da sua cama fitar semanas a fio o quarto vazio, despedir-se sempre na porta do prédio, nunca abrir caminho para o alto da escada ao lado da esposa, ter no quarto apenas portas laterais que dão para apartamentos de estranhos, trazer numa das mãos o jantar para casa, ter de admirar os filhos alheios e não poder continuar repetindo "não tenho nenhum", tomar por modelo, no aspecto físico e no comportamento, um ou dois celibatários das lembranças de juventude.

Assim vai ser, só que na realidade, hoje como mais tarde, ali estará o mesmo de sempre, com um corpo e uma cabeça real - ou seja, com uma testa também - para bater nela com a mão.

sábado, outubro 21, 2006

ZAMBA DEL OLVIDO

Olvídame,
esta zamba te lo pide.
Te pide mi corazón
que no me olvides, que no me olvides.

Deja el recuerdo caer
como un fruto por su peso.
Yo sé bien que no hay olvido
que pueda más que tus besos.

Yo digo que el tiempo borra
la huella de una mirada,
mi zamba dice: no hay huella
que dure más en el alma.

quinta-feira, outubro 05, 2006

Por que essa indefinição quando escrevo,
Sempre alguns
Muitas vezes algumas
De qualquer forma nenhuma coisa me satisfaz
Todas as coisas acabam por ser várias
E não poucas se fazem muitas
E isso é por alguém?
Por outrem?
Decerto há algo
Não pode ser por nada
Pois que tudo, e cada, se conjugam
Antes do nada

quarta-feira, outubro 04, 2006

sobre distâncias

Por que um reencontro não é como uma despedida?
Por que as cicatrizes não são como as feridas?
É porque o perto nunca foi tão longe...
E as marcas não doem mais...

terça-feira, outubro 03, 2006

A primeira vez que te vi
Ventava...
As árvores vergavam,
Mulheres seguravam suas saias
E os meninos soltavam pipas

A segunda vez que vi
Chovia...
Gotas parrudas feriam o chão,
As mulheres corriam para se abrigar
E os meninos pisoteavam nas poças

Não houve terceira
Nem quarta, tampouco quinta
Mas quando venta
Ou chove aqui
Solto pipa e pisoteio na lama.

domingo, outubro 01, 2006

Choveu hoje em mim, não como fazia Maria, pois que as gotas foram poucas e miúdas.
Tanto que poderiam ter saído de qualquer lugar – até dos olhos!

sexta-feira, setembro 29, 2006

Três são as contas do meu terço
Que contra a carne do peito
Machucam

É pela boca da Santa que elas rezam
Lamuria de virgem:
De braços abertos e os olhos
Cheios de tristeza e gozo

Três são as contas do meu terço
Que contam pro meu passado
Aquilo que não viveu.

quinta-feira, setembro 28, 2006

Quando foi que ela passou por mim a primeira vez, não lembro. Se perguntares que roupa vestia ou que perfume usava, terei que dizer invariavelmente – não lembro. E não é por descuido, mofina ou petulância, o fato é que não lembro. Se estava descalça, vestida, se usava suéter ou camiseta, se era verão ou inverno, também não lembro. Se fumava, roia as unhas, se tinha os cabelos longos ou curtos, vou afirmar, surpreso, que não lembro. Quantos anéis tinha, qual era a cor das suas unhas, esqueci completamente, a ponto de dizer-te que não lembro. As maçãs do rosto eram rosadas!? Pergunta-me!? Não lembro, infelizmente. Da boca, do sorriso, do brilho no olhar, das manias... não saberei dizer – porque não lembro. Alta, magra, baixa, gorda, morena, negra, loira... impossível dizer-te com certeza, pois não lembro. Se ouve jazz, ou dança samba, se freqüenta a ópera, ou vai a gafieira, não lembro, também. Se vinha de carro, bicicleta, ônibus, a cavalo não posso assegurar, já que não lembro. Se quando ficava brava gritava, chorava, arrancava os cabelos, xingava, cuspia; tenho a certeza de que não lembro. De quantas vezes disse que gostava, que odiava, que desejava, que sentia asco de mim, disso eu não lembro. Se lhe pedi perdão. Se enviei rosas. Se fiz serenatas a sua janela. Se a traí. Não lembro. Talvez tivéssemos passeado de mãos dadas, quem sabe até trocamos pontapés, mas eu não me lembro. Então por que eu insisto tanto em dizer que nunca a esqueci!